O meu trabalho foi sempre pautado pela atitude de quem busca, investiga, questiona. Gosto de reunir coleções para ver objetos de uma mesma natureza sob um novo enfoque. Não os coleciono para tê-los. Prefiro a sua representação através de desenhos, fotos e descrições impressos em livros. É uma forma de deixá-los para a posteridade. Dediquei boa parte da minha vida à fazer bons livros.
Esta história começa quando entrei na FAUUSP em 1969 e fiz parte da primeira turma que freqüentou a nova escola projetada por João Vilanova Artigas. Estudar naquela escola era motivo de orgulho. Havia no edifício uma proposta pedagógica inovadora e os espaços contínuos e generosos permitiam que as relações acontecessem de um novo jeito. Esta sensação de alegria durou pouco. Numa certa manhã do mês de abril de 1969, ao chegarmos à escola, recebemos a notícia fúnebre de que os professores Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha e Jon Maitrejean acabavam de ser aposentados. Daquele momento em diante, a escola, que era totalmente solar, tornou-se sombria. O afastamento do mestre deixou a escola acéfala, os professores não sabiam mais o rumo a seguir.
Projetar deixou de ser a coluna vertebral da escola. As questões políticas, a repressão, as perseguições tornaram-se o mote principal. Arquitetura só interessava se tivesse uma função social, se questionasse o status quo e se pudesse transformar a realidade. Nas aulas de projeto desenhávamos conjuntos habitacionais, nas aulas de história fazíamos pesquisas de campo na periferia da cidade, além de assistirmos as aulas do Sérgio Ferro que constrangiam o aluno que ousasse pegar no lápis para desenhar. Dizia nas aulas que a “casa burguesa’’ era feita à imagem e semelhança de seu proprietário. Por isto, como era parecida com o tal do “burguês” só podia ser um lixo. E que os arquitetos, porque que não tinham trabalho, detalhavam exageradamente os poucos projetos que faziam. Havia sobre nós uma patrulha ideológica que nos afastava do ato de projetar. Quando me formei não tinha segurança para exercer o ofício. Dois fatos orientaram os anos que se seguiram. Fui aprender a dar aula de História da Arquitetura na Faculdade de Guarulhos. E, me matriculei no primeiro curso de pós-graduação de arquitetura que abria no Brasil, na FAUUSP.
Como professora de história da arquitetura precisei estudar muito, tudo aquilo que não havia aprendido na escola. Usava o livro “Historia da Arquitetura Moderna” do Benevolo, recém lançado, como a principal referência teórica. E, para ilustrar as aulas, costumava emprestar da FAU uma coleção de slides maravilhosa. Analisei, então, inúmeras casas de Frank Lloyd Wright, Le Corbusier, Richard Neutra, etc. Repetia em forma de oração os cinco pontos da nova arquitetura: planta livre, fachada livre, pilotis, terraço-jardim, janelas contínuas. E, como atividade prática, pedia aos alunos que fizessem uma documentação sobre qualquer edifício moderno da cidade de São Paulo, através de levantamentos, desenhos e fotografias.
Antes de entrar na FAU estudei um ano no Mackenzie, escola bem conservadora. Os professores procuravam inovar as aulas de projeto trazendo arquitetos modernos para mostrar as suas casas. Depois de assistir essas apresentações, escolhiamos a obra que desejávamos visitar para fazer um levantamento métrico e depois desenhá-la a nanquin em papel vegetal. Assim, conheci o Eduardo de Almeida que foi apresentado como um arquiteto orgânico. Por acaso, escolhi a casa racionalista do Paulo Mendes da Rocha no Butantã. Estava em obra e era algo que eu nunca havia visto antes. Logo depois, quando já estava na FAU, os alunos costumavam visitar nas tardes de sábado essas obras modernas projetadas pelos professores. Eu me lembro perfeitamente como se fosse hoje, quando o ônibus cheio de alunos nos levou à casa do Paulo e nós passamos a tarde conversando com o arquiteto e vendo como a sua família convivia naquele espaço aberto cheio de intrusos. Aquilo parecia aos olhos de uma moça provinciana “um admirável mundo novo”.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
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6 comentários:
Marlene, em primeiro lugar parabéns pelo blog!
Vingará com a sua perseverança, é o único caminho, dia após dia!
Como é possível visões tão diferentes em colegas da mesma classe! A FAU para mim foi um período alienado, meio cinzento, onde algumas disciplinas se sobresairam,outras naufragaram, mal lembro dos professores, mal lembro de nada. Tudo o que aprendi de arquitetura foi nos primeiros trabalhos freelance e depois no escritório do Salvador Candia.
Hoje em dia conheço bastante, mais por insistência e curiosidade, menos por rigor acadêmico.
marlene, parabéns pelo blog. achei a idéia interessante, pois você tem muita coisa para contar, da época de estudante da fau.
assim como disse o stickel, interessante como colegas da mesma turma tem visões diferentes.
para mim, poucos foram os mestres que acrescentaram alguma coisa realmente importante em minha formação.
meu aprendizado se deu mais por esforço pessoal, por tempo de pesquisa na biblioteca, e em minha convivência com outros arquitetos. creio até que porque viviamos uma época política constrangedora, e nossos melhores mestres ou foram aposentados, ou eram patrulhados. os que sobraram, pouco tinham a contribuir.
então, será interessante conhecer melhor a sua visão desse período, bem como a de outros colegas.
corajosa!!!!!!!!!! vai em frente, vai dar um livro lindo!
QUERIDA MARLENE
PPAAARRRAAABBBEEESSS E OBRIGADA PELO BLOG. QUE EMOCÃO CONHECER MELHOR A VIDA PROFISSIONAL DA MINHA MAIS ILUSTRE AMIGA.UM PREMIO LER SEUS LIVROS(OS MAIS PRECIOSOS PRESENTES DE ANIVERSÁRIO).
E AS FOTOS , O ROSTINHO E O OLHAR INTELIGENTE CONTINUAM OS MESMOS, SÓ O CABELO QUE ERA UM POUCO MAIS ESCURO.HOJE MESMO, ESTIVE LA, NA CASA DE FRANK LLOYD WRIGHT, EM CHICAGO, SEMPRE PENSANDO EM VOCE QUE ME ENSINOU A APRECIAR TANTA COISA
AGORA, FIQUEI COM SEDE DE QUERER
SABER TUDO . CONTINUA LOGO
BEIJO CARINHOSO
BILA
Conheci você na UNB a menos de um mês, em uma aula onde falou de sua trajetória profissional.
Fiquei impressionado, bem impressionado pra dizer melhor. Conhecer seu trabalho ouvindo você falar dele é melhor ainda.
Gostei da honestidade com que falou da sua vida. Isso é muito raro.
Considerando a pesquisa que estou fazendo agora sobre mobiliário urbano em Brasília, foi importante conhecer seu trabalho com as residências de São Paulo e, o rigor e seriedade utilizados no levantamento de cada residência.(Meu orientador já havia feito referência do seu trabalho inclusive). Vou tentar agir com o mesmo rigor na minha pesquisa.
Parabéns pelo Blog. Foi um prazer conhecer você.
Roberto.
Amiga, isso vai longe! Tantas histórias, tantos trabalhos, pesquisas. Adorei.
Bjks mil / Tera
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