domingo, 25 de janeiro de 2009

Aos setenta e nove anos, a aquarelista Margaret Mee, especialista em arte botânica, foi pela última vez para a Amazônia com o intuito de encontrar e desenhar a Moonflower. Uma espécie de cactus, que se agarra nas árvores, cujas flores só florescem umas vez por ano por poucas horas à noite. Conhecia a planta, das inúmeras expedições que empreendeu pela floresta amazônica durante trinta e dois anos, mas nunca havia visto suas flores. Em 1988, quando já era bem idosa, determinada a vê-la florescer em seu habitat natural foi para o Arquipélago das Anavilhanas, uma reserva natural no Rio Negro. Durante alguns dias esteve em vários sítios a procura da Moonflower. Ao localizá-la, na noite tão esperada, fez uma vigília para vê-la florescer. Testemunhou, então, a abertura dos botões em grande flores brancas que desprendiam uma delicada fragância. Durante aquela noite, fez croquis de cada estágio da vida da Moonflower, dos botões abrindo-se em flores até finalmente murcharem. Quando voltou para casa, a partir destas anotações, realizou uma série de pinturas de cada estágio da Moonflower que são as únicas imagens existentes dessa flor tão efêmera. Esta pinturas foram o seu último trabalho.
Naquele ano foi à Londres para receber uma série de honrarias, reconhecimento pelo trabalho de uma vida, quando num acidente de automóvel faleceu. O jornalista inglês que a entrevistou para a televisão pela última vez, antes de sua morte, escreveu que ficou completamente seduzido por esta senhora de setenta e nove anos, sobretudo pela maneira como nela era evidente o compromisso com o que havia escolhido fazer, a certeza que tinha de sua responsabilidade na terra. Uma missão inspirada que ela tinha o talento para realizar.
Hoje, 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, a Pinacoteca inaugura uma exposição com aquarelas e pinturas desta ilustradora tão importante para o Brasil para comemorar os seus 100 anos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Recentemente fiquei sabendo que o Moma, em 2008, apresentou uma grande exposição sobre os "75 Anos de Arquitetura no Museu de Arte Moderna".

Gostaria muito de tê-la visto! Para muitas gerações de arquitetos, o Moma e este departamento sempre foram uma grande referência. Toda vez que íamos à Nova York era o primeiro lugar que visitávamos. Além da primorosa coleção de pintura do século XX, que conhecíamos das aulas do Flávio Motta ou das inúmeras noitadas com os colegas Luís Carlos Daher, professor de história da arte da Fau, e Augusto Lívio Malzoni, quando aprendíamos a disciplinar o nosso olhar através da arte moderna, curtíamos, também, os projetos de arquitetura e design que o museu colecionou desde 1932 quando fundou este Departamento de Arquitetura e Design.

Apreciando com prazer a descrição desta exposição, que não vi mas conhecia muita coisa através de publicações, uma obra chamou a minha atenção.

A exposição "House in the Garden", inaugurada em 1949 com um projeto do arquiteto Marcel Breuer, uma das mais populares daquela época com 70 mil visitantes. O museu encomendou ao arquiteto uma casa para uma família típica americana de classe média que poderia ser construída por qualquer empreiteiro com os materiais disponíveis no mercado. Esta casa deveria atender a dois pré requisitos: ser um objeto de arte e também um produto comercial. Os direitos do projeto pertenciam ao arquiteto e qualquer um que se interessasse poderia encomendar uma cópia mediante uma pequena taxa. O objetivo era mostrar que viver bem num bom projeto não custava tanto.

A casa foi construída no jardim de esculturas do museu. O acesso era feito pelo edifício principal ou pela entrada dos fundos na rua 54. A partir do conceito de planta binuclear, desenvolvido em 1943 por Marcel Breuer na Casa Geller, a casa era separada em zona diurna composta de estar, jantar e cozinha e zona noturna dedicadas aos dormitórios. A cobertura da casa em forma de asas de borboleta era conhecida pelo público americano. A casa foi mobiliada com móveis de Eero Saarinen, Charles Eames, do acervo, e do próprio Marcel Breuer desenhados para a ocasião. Quadros da coleção do museu foram expostos nas paredes.


Durante os seis meses da exposição, a media debateu tanto esta nova forma de morar que acabou influenciando a arquitetura residencial americana através do uso de vidro, madeira e pedra, além do uso distinto de atividades em zonas para definir o interior e o exterior de forma a permitir o movimento e a fluidez do espaço.

Ao final da exposição, a casa ia ser demolida mas foi comprada por um dos seus patrocinadores, John Rockfeller, que a utilizou desde 1950 como um pavilhão para convidados. Hoje, o bem é tombado e foi reconstituído como em sua origem.

A idéia desta exposição - divulgar através de protótipos o bom uso da arquitetura -poderia ser aplicada também nos belos jardins do Museu da Casa Brasileira ou nos espaços livres do Parque Ibirapuera.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A última revista japonesa a+u que chegou, número 460, mostra a importância da fotografia de arquitetura como fonte de inspiração. Sessenta e quatro arquitetos contribuiram com fotos, muita delas tiradas por eles mesmos, e escreveram pequenos textos onde justificaram suas escolhas.


Dessas, duas fotos e seus textos chamaram a minha atenção.

A primeira, do arquiteto Matti Sanaksendo, foi selecionada por ser uma de suas primeiras experiências arquitetônicas. Como estudante viajou para Roma. Na primeira manhã andou do hotel até uma belíssima praça, rodeada por bares e restaurantes. Reconheceu um pórtico com colunas de uma lado da praça. Entrou no edifício e encontrou um tesouro: o interior mais impressionante que já havia visto em toda a sua vida. Era o cosmos em sua totalidade dentro de um único edifício. Passou aquela manhã olhando como a luz do sol movia-se dentro daquele espaço grandioso. Quando saiu depois desta experiência tocante abriu o mapa e descobriu que havia acabado de visitar o Pantheon.
A segunda, escolhida pelo arquiteto Christoph Ingenhoven, retrata a força da vida urbana.

Segundo ele, o maior desafio que existe para o arquiteto é projetar um lugar que seja agradável para as pessoas, e desta forma contribuir para a construção de uma cidade vital. Assim, a foto do Bryant Park mostra como um ambiente alegre e perfeitamente feliz pode ser um presente maravilhoso para as pessoas que vivem numa cidade como Nova York.
O recorte destes arquitetos revelam de que forma a qualidade do espaço é fundamental para o nosso bem estar.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

No primeiro semestre de 2008, Marcos recebeu Ana Banciu e Alexandre Marcen, alunos romenos que desejavam muito conhecer a nossa casa.
Encantados, fotografaram durante horas tudo. Presentearam "o professor e arquiteto preferido...desse país tropical, Brasil!" com o livro O Sagrado e o Profano do autor romeno, Mirceu Eliade. Demonstrando grande familiaridade com o tema escreveram a seguinte dedicatória:

"O livro sagrado chegando num lugar sagrado....dentro a verdadeira arquitetura!"
Adorei a idéia e imediatamente reconheci que esta sempre foi a minha grande motivação: criar um lugar sagrado.
Depois ao ler o livro descobri que:

"A profunda nostalgia do homem é habitar um "mundo divino", num Cosmos puro e santo, tal como era no começo, quando saiu das mãos do Criador."

Tal como a cidade ou o santuário, a casa é santificada.

Construir uma casa representa uma decisão importante, pois compromete a própria existência do homem: trata-se de criar seu próprio "mundo"e assumir a responsabilidade de mantê-lo e renová-lo.
Toda construção e toda inauguração de uma nova morada equivalem de certo modo a um novo começo, a uma nova vida."
Como uma homenagem à estes jovens arquitetos por esta visita mágica reproduzi algumas fotos do CD que enviaram sob o nome de A Boa Casa.